7.9.13

Mudanças pelo tempo - Afghan Hound


Begum, 1934
Ranee, Straker e Kanee - 1925

Exlysta Aries Ciel Noir - campeã da Westminster em 2013


Afghan de caça no Afeganistão - 2013

1.5.13

Conflito e sofrimento

Semanas atrás, eu tive uma aula sobre Psicologia Clínica que só me remetia ao blog o tempo inteiro. Queria escrever um texto aqui mas com as complicações da vida cotidiana, não consegui. Hoje algo me trouxe de volta a esse assunto.


O tema da aula era: o que é o sofrimento na clínica psicológica?


Em posts anteriores, eu discuti como as punições podem produzir diversas respostas emocionais nos nossos cães e causar sofrimento. Mas será que isso é sempre verdade?  


Não, não é. :)

Isso não significa que menti para vocês. A verdade é que toda e qualquer forma de punição é desagradável e produz respostas emocionais compatíveis. No entanto, isso não significa que levará o cão ou a pessoa a viverem grande sofrimento.

Eu nunca fui a terapia para falar sobre a topada na porta que eu dei com o dedinho do pé. E eu sempre faço isso e é sempre mega desagradável. E eu também não falo sobre as buzinadas (e palavrões adjacentes) que eu recebo no trânsito quando fecho alguém sem querer e, na boa, eu sempre fico muito triste quando isso acontece. Não sei porque, ainda mais no trânsito paulista, mas eu fico.

Por mais que toda punição cause desconforto, não necessariamente isso levará a um grande sofrimento. E ninguém vai a terapia para falar sobre como é feliz ou sobre desconfortos. As pessoas vão a terapia para falar de sofrimentos, de sentimentos ruins que as acompanham a todo momento ou invadem áreas da vida que antes não eram ansiogênicas. 

Mas por que eu estou falando de tudo isso?

Os sofrimentos são gerados, não simplesmente por punições, mas por conflitos. 

Quando eu dou uma topada na porta, não existe nada que me faça querer dar outra topada. Eu simplesmente pego a minha dor e tento ser mais coordenada. Não existe conflito algumMas quando eu brigo com alguém que eu gosto muito... Por um lado, eu estou com raiva e quero ser agressiva, mas por outro, deixar essa pessoa triste, me deixa triste... mas então por que eu continuo brigando com ela? Por que ás vezes fazemos coisas que nos fazem sentir mal?

Mas quem nunca viveu o sofrimento de não se sentir aceito pelo que é? Estar acima do peso, não ser descolado ou gostar de pessoas do mesmo sexo. Afinal, se não ser aceito me deixa tão triste porque eu não faço o que é preciso para ser aceito? Antes fosse simples assim. Ah, se a vida fosse apenas topadas na porta. Não é? 

Os conflitos geram tanta dor porque nos fazem escolher entre sair perdendo e sair perdendo menos. Não há saída que nos permita evitar completamente sofrimentos futuros. Isso é uma m*rd@.

Mas por que eu estou falando de tudo isso? (2)

Em todos os posts desse blog em que eu defendi o treino de cães sem o uso de correções ou punições, eu não o fiz porque punições são coisas do demônio ou são politicamente incorretas. A gente sempre vai dar topadas na porta, faz parte. Mas eu defendo o treino sem correções porque eu não desejo um treino gerador de conflitos.

Quando falamos de desvios de comportamentos, isso se torna ainda mais importante. Quando nossos cães fazem algo de errado com frequência, eles o fazem por um motivo. Não porque são pentelhos, maus ou bravos, mas porque algo faz desse comportamento a melhor opção para eles. Ou a opção menos pior. Algo está sustentando esse comportamento e, o quer que seja, se colocará no caminho da punição que eu usar para interromper esse comportamento. Nesse ponto, meu cão terá de escolher qual é a melhor opção ou qual a menos pior...


Meu cão preto, por exemplo, é agressivo com outros cães no passeio. Tenho plena certeza de que sua agressividade é causada por medo. Para ele, avançar em outros cães ajuda a lidar com esse medo. No começo da nossa relação, quando ele ainda era filhote, eu fui aconselhada a puni-lo toda vez que emitisse comportamentos agressivos. O principal efeito desse treino foi: aumentar ainda mais seu medo de outros cães. Afinal, quando ele via outros cães, ele não devia só teme-los, como devia temer a mim também.

Não nego que talvez alguém experiente com esse tipo de treino pudesse ter sido mais bem sucedida do que eu fui, talvez pudesse mesmo. Mas esse treino nada faria para diminuir o medo que o Pypo sentia de outros cães, mas sim, para fazer com que a minha punição vencesse esse conflito. Ou seja, o objetivo final seria que ele conseguisse engolir o desconforto causado por outros cães para evitar minhas broncas.

Além de não fazer nada a respeito da principal problemática do meu cão, esse tipo de treino colocou uma pedra na nossa relação que até hoje eu tento tirar.

Por isso, ao cogitar o uso de punições, olhe ao redor de seu cão e não para ele. As causas do comportamento não estão nele. Não adianta corrigi-lo como se ele fizesse isso por ser folgado, dominante ou malvado. É o ambiente que diz ao seu cão como deve agir. Sendo assim, aja sobre esse ambiente. 

Desfaça conflitos, não os crie!


Lembre-se: seu cão não tem a opção de ir à terapia :)

17.3.13

3000 palavras - Shar Pei

Shar Pei chinês - 1984

Heidy Golden di Tianzi - Shar Pei de exposições
2a melhor da raça CBKC em 2012


Vrodeas Kynon Melathron -
Shar Pei Tradicional hoje

12.3.13

Workshop de Shaping - Primeiros Passos

Tá chegando!

No próximo dia 23, vou ministrar meu primeiro curso. Será um workshop de 4 horas sobre primeiros passos para o treino com Shaping. A ideia é apresentar o que é o shaping e como tirar o melhor do treino com esse tipo de "técnica". 

Para quem treina cães de esporte, o termo deve soar familiar. Isso porque ele vem junto com a grande onda do treino de "fundamentos" que está aparecendo no Agility brasileiro.

Gabrielle Blackburn e Polona Bonac vieram ao Brasil para discutir sobre o treino de fundamentos para o Agility. Ambas começaram seus seminários discutindo sobre Shaping, isso porque esse era o método escolhido pra ensinar a maioria dos exercícios. Esse ano, Daisy Peel vem ao Brasil e dedicará um dia inteiro apenas a "foundations".

Mas qual a relação entre essas duas coisas?

Minha impressão é que quanto mais os treinadores descobrem sobre o Shaping, mais eles se voltam ao treino de fundamentos. E, se formos olhar para os maiores expoentes do Agility hoje, a grande maioria treina com shaping e enfatiza a grande importância dos fundamentos. Citando alguns nomes temos: Susan Garrett, Silvia Trkman, Martina Klimesova, Polona Bonac, Daisy Peel, Tereza Kralova... isso falando apenas dos que eu tenho certeza.

Nada disso é coincidência. 

Isso porque o shaping é muito mais que apenas uma técnica, um método. Compreender sobre esse tipo de treino permite compreender sobre como cães aprendem e como bolar treinos que tirem o que há de melhor em cada cão.

E é para abordar esses tópicos que a Dog World me convidou para idealizar esse projeto! :) 

Aos interessados em saber como essa saga continua, as informações do curso podem ser encontradas aqui


8.2.13

Mudanças pelo tempo - Pastor de Shetland

Inverness Topsy - 1908

Ch. Lerwick Rex - 1910

***  


Apple Acres Painted Desert

Ch. Mystic Ava Gardner

31.1.13

Pensando sobre frustração

Podemos aprender a ensinar melhor se prestarmos atenção a nossas próprias dificuldades durante um aprendizado.


***


Nesse período de férias resolvi aprender um novo esporte. Melhor gastar o tempo ocioso com atividades físicas, é o que dizem. Só pra efeito de curiosidade, o esporte escolhido foi o tênis.


Tem sido uma experiência divertida especialmente pela facilidade com que fui aprendendo os movimentos básicos. Isso nunca tinha acontecido antes, rs.

Hoje, foi diferente. Antes da minha oitava aula, procurei todas as desculpas plausíveis para poder faltar. Sem nenhuma em mão, eu fui pra aula. Mas o simples fato de que eu tentei escapar não podia ser ignorado (não por mim, pelo menos) e eu passei todos os 50 minutos da aula tentando entender o por quê dele. 

Achar o por quê não foi difícil. Visto que foi, de longe, uma aula extremamente frustrante. Tentar descobrir porque, em tão pouco tempo, o esporte deixou de ser divertido e fácil para se tornar frustrante e estressante, foi um pouco mais difícil, mas eu consegui.

O mais irritante de tudo era o fato de que eu simplesmente não conseguia acertar por muitas tentativas. A taxa de acerto beirava os 50% se eu deixasse o critério beeeem frouxo. Não fazia questão que a bolinha caísse dentro da quadra, desde que eu acertasse o movimento... nem isso estava funcionando. Mas o que aconteceu pra, de repente, eu estar indo super bem e cair tanto?

Eu bolei uma hipótese.

Nas aulas anteriores eu estava acertando super bem os movimentos, de direita e esquerda. Mas, obviamente, a dificuldade dessas jogadas não eram muito altas. O professor sempre mandava as bolas com a mesma velocidade e fazia elas caírem aproximadamente no mesmo local, só variava os lados. Eu acertava a grande maioria.

Nas duas últimas aulas, os locais em que ele jogava a bolinha começaram a variar muito. Bolas longas, curtas, eu não podia prever o lado que ele iria jogar, etc. Toda minha habilidade desmoronou. Eu não conseguia mais acertar os movimentos. Toda técnica e precisão que eu tinha adquirido, se perderam num instante.

E o que é pior, eu perdi a motivação e a vontade de jogar.

***


O objetivo desse post não é contar a minha trajetória dentro do tênis, mas sim, dividir com vocês algo da minha experiência que é muito importante lembrarmos quando formos ensinar qualquer habilidade seja a um aluno humano ou canino.

Durante o "shaping" do meu comportamento, o professor optou por estratégias de treino que não contribuíram para a minha aprendizagem e diminuíram a minha motivação em relação ao esporte. Foram elas: 

1- aumentar a dificuldade de forma muito brusca, de modo que eu não tinha altas chances de acertar e ser reforçada

2- insistir no nível de dificuldade e não voltar um pouco atrás e nem revezar entre bolas difíceis e fáceis para que eu pudesse continuar sendo reforçada.



E ao fim de 50 minutos, eu não tinha a menor vontade de fazer uma próxima aula.

Lembrem de mim quando forem treinar seus cães.

Se seu cão aprendeu a fazer um novo obstáculo, por exemplo, não o jogue direto em uma sequência longa, cresça a dificuldade aos poucos. Será mais educativo e menos frustrante.

Se seu cão aprendeu a fazer o "2on2off" enquanto você corre ao lado dele, não espere logo de cara que ele acerte com você disparando na frente ou ficando para trás. Cresça a dificuldade aos poucos.

Errar não deve ser um problema. Meu professor não briga comigo quando eu erro, e nem eu comigo mesma, simplesmente espero a próxima bola e tento acertar. Mas é importante que criemos situações em que nossos cães tenham uma chance real de acertar. Assim como é importante que meu professor faça isso por mim porque, honestamente, ninguém consegue aguentar uma sessão inteira só de erros. Nem eu, nem nossos cães.

7.1.13

Reforços, carros e facebook ou como não é preciso recompensar toda vez

Um dos maiores mitos do treino de cães com reforço positivo é o de que se formos treinar com petiscos ou brinquedos, teremos que recompensar nossos cães toda vez que eles fizerem um dado comportamento.

Como já coloquei, isso não passa de um mito. Se vocês ligam a tevê e não tem nada de legal passando, vocês vão parar de ver tevê pra sempre? Ao entrar no facebook e não ter nenhum atualização interessante e nenhuma mensagem de amigos, vocês vão parar de acessar essa rede social? É muito provável que não.

A verdade é que nem sempre as coisas que gostamos de fazer nos providenciarão reforços, ás vezes teremos de tentar um pouco mais antes de conseguir aquilo que queremos. E se nós somos capazes de aprender que na vida é preciso continuar tentando, por que não nossos cães? 

Mas não é só isso.

A forma e a frequência com que recebemos reforços para uma dada atividade (o chamado de esquema de reforçamento) modifica o nosso comportamento e o de nossos cães. Um exemplo clássico ilustra isso muito bem: suponhamos dois homens e seus respectivos carros. O primeiro possui uma Ferrari novinha e o segundo tem um fusca '68. Um belo dia o dono da Ferrari sai para trabalhar e o seu carro não pega... Ele tenta uma, duas, três vezes e aí desiste e liga para o seguro. No mesmo dia, o dono do fusca sai para trabalhar e seu carro também não liga mas diferente do outro homem, ele tenta muito mais vezes antes de desistir. Qual a diferença entre esses dois indivíduos? A diferença está no esquema de reforçamento do comportamento de ligar o carro. 

Vou destrinchar isso um pouco mais descrevendo os três esquemas mais presentes nos treinos de animais. 

O primeiro esquema é o de reforço contínuo, nele todas as respostas do organismo são reforçadas, sem exceção. Esse é o melhor esquema para se ensinar algum comportamento novo pois permite uma aquisição mais rápida. No entanto, se o reforço for interrompido por qualquer motivo, o comportamento se perderá rapidamente.

É o caso do dono da Ferrari. Toda vez que ele decide ligar o carro, o carro liga. Se por qualquer motivo, o carro não ligar, esse homem tentará poucas vezes antes de desistir.

O próximo esquema é o de razão variável, que é provavelmente o mais comum em nossas vidas. Nesse esquema não sabemos quando seremos reforçados, pois o reforço vem após um número variável de respostas, e continuamos tentando até conseguir. É o esquema predominante no Facebook, por exemplo, em que o feed de notícias nem sempre mostra algo interessante, mas continuamos procurando até achar alguma postagem que nos reforce.

E é o caso do dono do fusca que persiste por muito tempo antes de desistir de ligar seu carro. Alguns dias seu carro ligará de primeira, em outros vai ter que de tentar 5 ou 10 vezes antes de conseguir ligá-lo. Logo, quando seu carro não liga facilmente, ele continua tentando na esperança de conseguir na próxima, ou na próxima...

Esse é o melhor esquema para se evitar que o comportamento entre em extinção, mas esse é o tópico para outro post. 

Por fim, temos o reforço diferencial em que não se reforça a partir de um número de tentativas, mas sim, quando o comportamento atinge um dado critério. Por exemplo, podemos reforçar toda vez que o cão acerta um comportamento numa situação difícil,  como quando faz os truques em meio a distrações. 

Ou então, podemos reforçar a partir da qualidade da performance. Hoje estou retreinando os saltos da Dory e toda vez que ela faz um salto muito curto em uma sequência, eu paro para reforçá-la. A ideia é que ela se esforce para saltar cada vez mais curto pois é isso que produz mais brincadeiras e petiscos :)

Dessa forma, fica claro que recompensar todas as vezes não é necessário, mas também é contraprodutivo no treino de nossos cães. O reforço contínuo é vital para ensinar coisas novas, mas a partir do momento que o cão já sabe, o melhor é adotar outros esquemas que permitam tornar o comportamento mais duradouro ou melhorar sua performance.