Recentemente, eu comecei a me envolver mais ativamente em debates relacionados a cinofilia. Provavelmente por estar tanto tempo longe desses debates, eu fui pega de surpresa por como as coisas que eu disse foram recebidas com desconforto. A reação das pessoas me levou a pensar melhor o que na minha posição causou tanto desconforto; o bom dos debates é que te instigam a refletir. Será que eu estava enxergando além do que deveria ou será que não consegui me expressar bem?
A reflexão me permitiu ver algumas coisas mais claramente. Hoje, tentarei explicar melhor minha posição. Espero conseguir mostrar porque eu acredito que as coisas estão bem mais sérias do que parecem. A minha posição, no entanto, é bem simples e pode ser resumida em uma frase:
"As coisas que você não pode ver são mais importantes que as coisas que você pode ver"
Essa frase era a idéia central de Dan Belkin, criador de Salukis de caça, ao discutir sobre estrutura. Mas ela também pode ser aplicada a muitas áreas da cinofilia.

Belkin possuía um exemplo clássico, simples e muito interessante. Ele dizia: "o padrão do Saluki diz que o cão deve possuir 'olhos de escuros à cor de avelã, brilhantes, grandes e ovais, mas não proeminentes', mas não diz se o Saluki deve conseguir enxergar". Obviamente, Belkin não se referia a Salukis cegos. Os olhos são órgãos bastante complexos e o "espectro da visão" não se resume a enxergar ou não enxergar. Para cães que caçam a partir desse sentido isso é especialmente importante.
O criador exemplificava com o caso de uma fêmea que conseguia ver lebres que estavam a mais de 300 metros de distância. Todos seus outros Salukis nem se davam conta da presa. Como seria possível avaliar a capacidade funcional desses animais fora da situação de caça? E isso se estende para todas as características descritas nos padrões de raça.
Mas a estrutura não é a única área em que "as coisas que você não pode ver são mais importantes". Na verdade, quando li essa frase pela primeira vez, achei que Belkin estaria se referindo a genética.
Não é difícil entender porque a genética depende imensamente de coisas que não podemos ver e porque essas coisas são tão importantes. A maior parte das características de nossos cães dependem de genes que não conseguimos isolar, ou ainda, mesmo que tenhamos isolado esse gene, podemos não compreender como ele interage com o resto do genoma.
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| Será que a cinofilia está pronta para permitir que a ciência ajude a superar sua cegueira? |
Mas não estamos completamente no escuro. Os conhecimentos disponíveis em genética nos permitem avaliar a criação de cães com muito mais cuidado para que, no fim, não acabemos dando um tiro no próprio pé.
Quando penso em criação de cães, temo que os criadores não estejam levando a sério aquilo que não podem ver. Hoje, somos capazes de ver as consequências das criações que cometeram o mesmo erro, mas muitas dessas criações estavam, de fato, desafiando a escuridão. Talvez ainda não possamos ver tudo claramente, mas podemos ser míopes mais preparados.
A ciência deveria ser recebida como uma ferramenta pelos criadores, um par de óculos que permitisse, progressivamente, descobrir o que é que estamos fazendo.
Em todas as esferas do desenvolvimento humano já houveram práticas que foram tão celebradas, que não pareciam poder ser superadas. A roda, a penicilina, a escravidão. Mas a verdade é que nosso constante desenvolvimento condena essas mesmas práticas à obsolescência. O progresso não promete apenas bons frutos, mas não podemos deixar de caminhar em frente. O futuro trará coisas muito importantes, mas que ainda não somos capazes de ver.
Em todas as esferas do desenvolvimento humano já houveram práticas que foram tão celebradas, que não pareciam poder ser superadas. A roda, a penicilina, a escravidão. Mas a verdade é que nosso constante desenvolvimento condena essas mesmas práticas à obsolescência. O progresso não promete apenas bons frutos, mas não podemos deixar de caminhar em frente. O futuro trará coisas muito importantes, mas que ainda não somos capazes de ver.
"Não considere nenhuma prática como imutável. Mude e esteja pronto a mudar novamente. Não aceite verdade eterna. Experimente" (B. F. Skinner)










